700 usuários, 10.000 horas: o que um side project ensina que nenhum curso ensina

A história real do Logus Academy — de ideia simples a produto com centenas de usuários ativos. Decisões, erros e lições que só aparecem quando você lança algo no mundo real.

4 min read632 palavras

Meu side project tem mais usuários do que a maioria das startups que levantaram seed. Custou R$0 de investimento. Deixa eu te contar o que aconteceu.

O problema

Em 2016, minha esposa Valéria estava na academia — não a de ginástica, a acadêmica. Pesquisadoras e estudantes passavam horas transcrevendo entrevistas de áudio manualmente. As ferramentas disponíveis eram caras, imprecisas ou simplesmente não existiam em português.

A dor era real. Não era um problema inventado em um pitch deck.

A primeira versão

Construí a primeira versão do Logus Academy em NextJS com Firebase. Nada sofisticado:

  • Upload de áudio
  • Transcrição usando APIs de speech-to-text
  • Editor para correção do texto
  • Export em formatos acadêmicos

Levou algumas semanas. O design era funcional, não bonito. O código era... funcional, não bonito também.

Lição #1: Sua primeira versão vai ser feia. Lance assim mesmo. A alternativa — não lançar — é infinitamente pior.

Os primeiros usuários

Os primeiros 10 usuários foram amigos da Valéria. Pesquisadores que precisavam transcrever entrevistas para dissertações e teses. O feedback foi imediato e brutal (no melhor sentido):

  • "A transcrição erra muitos nomes próprios"
  • "Preciso pausar e voltar o áudio com mais facilidade"
  • "O export não mantém a formatação ABNT"

Cada feedback era um bug report disfarçado de reclamação. E cada reclamação me mostrava o que realmente importava — versus o que eu achava que importava.

Lição #2: Seus primeiros 10 usuários valem mais que 10.000 pesquisas de mercado. Eles te dizem exatamente o que construir.

O crescimento orgânico

Não gastei um centavo em marketing. O crescimento veio de:

  1. Boca a boca acadêmico — pesquisadores indicando para colegas
  2. Grupos de WhatsApp de pós-graduação
  3. SEO básico — páginas bem estruturadas para "transcrição de áudio acadêmica"

Em 2 anos, já tinham mais de 200 usuários. Hoje são 700+ usuários ativos com mais de 10.000 horas de áudio transcritas.

Lição #3: Se o problema é real e a solução funciona, o marketing se faz sozinho. Produto bom é a melhor estratégia de crescimento.

As decisões técnicas que importaram

Firebase foi a escolha certa

Para um side project de uma pessoa, Firebase eliminou toda a complexidade de backend: auth, database, storage, hosting. Eu focava 100% no produto, não em infraestrutura.

NextJS como frontend

Server-side rendering ajudou no SEO (os pesquisadores encontravam pelo Google). A performance era boa o suficiente. E eu já dominava React.

Não escalar prematuramente

Com 700 usuários, ainda rodo no plano gratuito/básico do Firebase. Não precisei de Kubernetes, microservices ou "arquitetura enterprise". A complexidade que eu não adicionei foi tão importante quanto o código que escrevi.

Lição #4: Não resolva problemas que você ainda não tem. Escale quando a dor de não escalar for real.

O que nenhum curso ensina

Cursos ensinam como escrever código. Side projects ensinam:

  • Como priorizar — quando você é o único dev, PM, designer e suporte, aprende rápido o que realmente importa
  • Como lidar com usuários reais — pessoas com expectativas, frustrações e casos de uso que você nunca imaginou
  • Como manter motivação — não tem chefe cobrando, não tem sprint. A motivação tem que ser interna
  • Como tomar decisões com informação incompleta — você nunca vai ter todos os dados. Decide e ajusta
  • Como medir sucesso de verdade — não é stars no GitHub. São pessoas usando o que você construiu para resolver problemas reais

Meu conselho

Se você é desenvolvedor e nunca lançou um side project, lance. Não precisa ser uma startup. Não precisa ter investidor. Não precisa ser perfeito.

Precisa resolver um problema real para uma pessoa real.

O resto vem.


O Logus Academy continua ativo em logusacademy.com.br. Se você é pesquisador ou conhece alguém que precisa transcrever áudio, está lá.